Limbo é um jogo singelo, mas
interessante. Sua proposta encaixa-se dentro dos puzzles em 2D. Até aí, tudo parece bastante tradicional, mas o
ambiente criado e a inteligência com que é tratada a proposta fazem com que o
jogo esteja muito acima do que qualquer descrição dele pudesse fazer crer.
Tratando
primeiro do ambiente, cabe falar de três elementos: o cenário, o som e o
enredo. Todos são muito articulados, sendo, entretanto, de uma simplicidade
impressionante. Nada é contado, apenas mostrado: um menino acorda numa floresta
sombria e começa a andar por ela, deparando-se com criaturas gigantes, alguns
elementos tecnológicos, e pessoas hostis. O título Limbo justifica-se por esse cenário: as criaturas não estão com o
tamanho esperado, a relação com as outras pessoas é diferente, a tecnologia,
tal como aparece, não faz sentido. Aquele mundo não é natural. Some-se a isso a
interessante escolha de criar um cenário todo feito com preto e tons de cinza,
e o estranhamento é total. Nada é nítido, nem mesmo o menino, todo preto com
apenas dois olhos brilhantes. Por fim, o som, sem trilha alguma, mas povoado
pelos pequenos ruídos do ambiente, com insetos e objetos metálicos, ajuda na
imersão desse mundo esquisito.
O
estranhamento logo se torna hostilidade nesse mundo. A impressão de violência
desproporcional fica ainda mais clara quando comparados o pequeno e frágil
herói e os perigos descomunais que o cercam. Esses fatores estéticos já dão a
medida de um importante elemento da jogabilidade: morre-se muitas vezes em Limbo. Ou seja, o jogador também sofre
as violências do ambiente, envolve-se com ele mais profundamente, age com
cuidado e inteligência.
E
o jogo corresponde à exigência que obriga todos a assumirem. Mesmo os primeiros
desafios já demandam atenção elevada, e os últimos consomem dezenas de minutos
para atinar com a resposta. A contradição aparente então pede explicação: como
um jogo tão simples, em 2D, com uma raridade de objeto e opções, pode ser tão
complexo? A resposta já é conhecida pelos jogadores: em Limbo, cada um dos obstáculos é
tratado com cuidado e excelência, e exige precisão nos movimentos (que
respondem muito bem) e no pensamento.
Limbo é um jogo capaz de mostrar que uma
experiência estética interessante pode se somar bem a uma jogabilidade precisa
mesmo num pequeno (e aparentemente casual) jogo. A experiência, embora sombria,
tem algo do lirismo e da entrega de um jogo que preza pela suavidade. Seu
final, inclusive, aponta nessa direção, pois revela ser o jogo todo uma
experiência dos perigos numa jornada por aquilo que nos é caro, seja o que for.
Se um bom jogo lembra (e mesmo ultrapassa) um bom romance, Limbo, aliando enredo alegórico e jogabilidade excelente, tem algo
de poema: cuidado, beleza, precisão em cada gesto e um mundo repleto de
significado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário