sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Limbo


            Limbo é um jogo singelo, mas interessante. Sua proposta encaixa-se dentro dos puzzles em 2D. Até aí, tudo parece bastante tradicional, mas o ambiente criado e a inteligência com que é tratada a proposta fazem com que o jogo esteja muito acima do que qualquer descrição dele pudesse fazer crer.

            Tratando primeiro do ambiente, cabe falar de três elementos: o cenário, o som e o enredo. Todos são muito articulados, sendo, entretanto, de uma simplicidade impressionante. Nada é contado, apenas mostrado: um menino acorda numa floresta sombria e começa a andar por ela, deparando-se com criaturas gigantes, alguns elementos tecnológicos, e pessoas hostis. O título Limbo justifica-se por esse cenário: as criaturas não estão com o tamanho esperado, a relação com as outras pessoas é diferente, a tecnologia, tal como aparece, não faz sentido. Aquele mundo não é natural. Some-se a isso a interessante escolha de criar um cenário todo feito com preto e tons de cinza, e o estranhamento é total. Nada é nítido, nem mesmo o menino, todo preto com apenas dois olhos brilhantes. Por fim, o som, sem trilha alguma, mas povoado pelos pequenos ruídos do ambiente, com insetos e objetos metálicos, ajuda na imersão desse mundo esquisito.

            O estranhamento logo se torna hostilidade nesse mundo. A impressão de violência desproporcional fica ainda mais clara quando comparados o pequeno e frágil herói e os perigos descomunais que o cercam. Esses fatores estéticos já dão a medida de um importante elemento da jogabilidade: morre-se muitas vezes em Limbo. Ou seja, o jogador também sofre as violências do ambiente, envolve-se com ele mais profundamente, age com cuidado e inteligência.

            E o jogo corresponde à exigência que obriga todos a assumirem. Mesmo os primeiros desafios já demandam atenção elevada, e os últimos consomem dezenas de minutos para atinar com a resposta. A contradição aparente então pede explicação: como um jogo tão simples, em 2D, com uma raridade de objeto e opções, pode ser tão complexo? A resposta já é conhecida pelos jogadores: em Limbo, cada um dos obstáculos é tratado com cuidado e excelência, e exige precisão nos movimentos (que respondem muito bem) e no pensamento.

            Limbo é um jogo capaz de mostrar que uma experiência estética interessante pode se somar bem a uma jogabilidade precisa mesmo num pequeno (e aparentemente casual) jogo. A experiência, embora sombria, tem algo do lirismo e da entrega de um jogo que preza pela suavidade. Seu final, inclusive, aponta nessa direção, pois revela ser o jogo todo uma experiência dos perigos numa jornada por aquilo que nos é caro, seja o que for. Se um bom jogo lembra (e mesmo ultrapassa) um bom romance, Limbo, aliando enredo alegórico e jogabilidade excelente, tem algo de poema: cuidado, beleza, precisão em cada gesto e um mundo repleto de significado.

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